Ian Paice e Alaor Neves.

O Baterista dp Deep Purple em entrevista concedida durante a turnê de lançamento do CD “Bananas” no Brasil em outubro 2003.
Alaor Neves - Você e o Jonh Lord foram os únicos, da formação original, do Deep Purple que não saíram em nenhuma ocasião até agora. Como você vê esta mudança ?
IAN - Tudo muda. As coisas não são como há 30 anos atrás. Algumas coisas no passado aconteceram e hoje você olha e deseja que não tivessem acontecido. E neste caso você esta lidando com 5 pessoas. Pessoa que tem a coragem de subir em um palco geralmente tem egos muito grandes e personalidades muito fortes, e é inevitável que depois de certo tempo conflitos ocorram. Às vezes são conflitos criativos às vezes não. E as mudanças, quando acontecem ,geralmente você não deseja que elas aconteçam. Mas as coisas acontecem. Algumas destas mudanças aconteceram há muito tempo atrás, mesmo a saída do Ritchie, há 10 anos atrás, são como as coisas do passado na sua vida, ficam obscuras no passado e você não se lembra muito bem. As coisas boas você se lembra para sempre. Mas as mudanças que aconteceram nos levaram a estar aqui, eu acho que se nós não tivéssemos a habilidade de mudar as pessoas nós não existiríamos hoje em dia, nós acabaríamos odiando uns aos outros e teríamos parado. É como um terremoto, você precisa de um pequeno terremoto para depois ter um grande terremoto.
Alaor Neves - Qual a fase do Deep Purple que você gosta mais e que sua musicalidade foi mais exigida?
IAN - Eu acho que bem no começo, quando eu entrei na banda, em 1969, foi um período muito excitante. porque antes disso, nos 3 discos que nos fizemos antes do IAN e o Rogger entrarem na banda foram um pouco confusos. Como banda nós ainda estávamos tentando achar o que queríamos fazer, quem nos éramos, como nos iríamos fazer tudo isso, nunca era claro quais eram os objetivos. Quando Ian e Rogger chegaram, não era uma coisa consciente,de uma hora pra outra banda acabou tocando de um jeito diferente e ai tomou consciência de que alguma coisa importante estava acontecendo que nos acabaríamos tendo mais sucesso e nos estávamos muito mais felizes com a música que estava rolando, parecia que tínhamos um objetivo e isso foi muito excitante. E também com o imediatismo com o qual a nossa música chegou ao público, especialmente na Europa, e como foi aceito fez com que o mundo todo tivesse as portas abertas para nós. Essa mudança foi uma boa mudança e isso também foi muito excitante. E foi assim durante 2 ou 3 anos....e foi uma época boa mas todos que estão neste negocio dizem que se você ficar 5 anos no topo você é uma pessoa de muita sorte porque a media é de mais ou menos 2 anos. E 30 ou 35 anos depois ainda tendo sucesso e curtindo música, isso é muito excitante.
Alaor Neves - Apesar da agenda cheia do Deep Purple você arruma tempo para outros projetos, inclusive algum projeto solo.
IAN - O último projeto solo que fiz foi um DVD para bateristas e fãs. Eu não sou um músico fanático, sou um músico sortudo. A natureza me deu o dom de fazer algumas coisas na bateria, mas para mim não é tão importante assim, quando eu chego em casa e não estou em turnê eu fico o tempo todo sem tocar bateria. Se eu sinto vontade de vez em quando eu sento e toco, se eu não estou a fim eu não toco. Eu não pratico, eu prefiro ficar sentado na frente da TV tocando com as baquetas no joelho, mas eu não penso sobre isso, e só para manter a musculatura em dia. Às vezes fico em casa por 4 ou 6 semanas e não toco. Eu fico entediado estudando. Eu nunca tive tempo pra estudar. Eu aprendi a tocar no palco. Pra mim foi tudo muito rápido, adquiri meu primeiro kit de bateria quando eu tinha 15 anos de idade, aos 17 já era profissional e aos 19 eu estava no Deep Purple.
Alaor Neves - Como era sua família em relação à música. O que acabou te levando a música ?
IAN - Meu pai era pianista, trabalhava antes da Segunda Guerra, e quando a guerra acabou ele tinha uma família vindo, porque ele tinha um irmão de 10 anos e ele decidiu que ele tinha que ter um trabalho fixo e faria da musica seu hobbie, tocando nos fins de semana por um dinheiro extra. Depois que ele descobriu que eu tinha jeito pra coisa ele sempre me ajudou muito. Ele me fez entender que não é algo que você faz brincando, porque tem uma fase na sua vida que é a de aprender coisas, quando você tem 16 anos você tem que aprender a ter um oficio para o resto da sua vida e se você fizer musica nos próximos 4 ou 5 anos você tem que ter certeza de que musica e o que você realmente quer fazer.
Alaor Neves - A bateria foi o primeiro instrumento pelo qual você se interessou?
IAN - Foi o primeiro instrumento que me interessou, mas não o primeiro que eu toquei. O primeiro foi o violino. Era horrível!
Alaor Neves - Você ainda toca violino?
IAN - Não. Nem naquela época eu tocava violino! (risos) Eu queria tocar um instrumento e na escola tinha alguns instrumentos que você poderia aprender... trompete, violino... Não tinha muita opção, não tinha bateria, guitarra, talvez piano mas vendo meu pai que era um grande pianista tocar eu não quis tocar piano. Tentei, mas não deu certo. De repente eu me via batucando aonde pudesse (batuca na mesa) e soava muito melhor pra mim.
Alaor Neves - Você teve algum professor?
IAN - Não.
Alaor Neves - Mas você tem uma excelente técnica.
IAN - Eu morava numa cidade pequena, perto de Oxford e não tinham professores lá. Tinha um baterista local que era bom mas depois de 1 ano eu já estava tocando melhor do que ele, então ele não poderia me ensinar nada. Eu costumava observar na TV e costumava ouvir muito dos discos. A minha técnica apareceu acidentalmente. Minha técnica não é excelente porque ninguém me ensinou. Mas é um jeito que eu arrumei de tirar o som certo. Mas se você for por um professor do meu lado ele vai dizer (Ta tudo errado) e eu vou dizer (é..mas soa bem). Porque se você faz alguma coisa que não e muito ortodoxa você tende a achar coisas que as pessoas normalmente não acham. Às vezes as coisas ficam mais difíceis pra você porque você não sabe o jeito certo de fazê-las e você acaba achando um jeito único de fazê-las, algo pessoal seu.
Alaor Neves - Algo como não ficar preso a regras?
IAN - Não tem regras porque você não sabe aonde elas estão.
Alaor Neves - Quais eram os bateristas que você assistia?
IAN - Eu assistia aos filmes de Hollywood na TV e em alguns desses filmes tinham as orquestras de Tommy Dorsey, Glenn Miller e Benny Goodman. Na orquestra do Benny Goodman tocava o Genne Kruppa e esse cara era um grande showman. E eu pensei comigo (Eu gostaria de fazer isso). Quando esses filmes apareceram com esses bateristas dos anos 30 e 40 eu tentei copiar o que eles faziam na mobília de casa com as agulhas de costura da minha mãe. Imediatamente eu entendi porque as peças da bateria teriam de ficar onde elas ficam, as notações, etc... Eu tive uma rápida afinidade com o instrumento. Eu não tocava muito bem mas eu entendi o instrumento. Quando meu pai percebeu que eu estabeleci uma relação com o instrumento no meu aniversario de 15 anos ele me deu uma bateria. Antes disso eu usava latas de biscoito, panelas, potes e moveis como peças de bateria. E foi assim que tudo começou.
Naquela época tinha musica ao vivo em todo clube, pequenos bares, pubs, Não tinham DJs. Só se usavam DJs durante 15 minutos entre as bandas. Mesmo com 15 anos de idade e minha primeira banda nos conseguíamos fazer 2 ou 3 shows por semana, e quando eu entrei na minha primeira banda profissional nos fazíamos 6 ou 7 shows por semana, tocando toda noite, e como eu disse eu aprendi a tocar no palco. Se você tinha o talento naquela época, você poderia tocar com freqüência tal e ter tamanha informação que quando você chegava aos 19 anos você já era um musico experiente. E muito mais difícil para os jovens de hoje, pois em muitos lugares não tem musica ao vivo. Com DJs tocando Dancemusic é uma coisa diferente. Eu acho triste que essa geração que tem excelentes músicos são vai se tornar bons realmente quando eles chegarem aos 30 ou 35 anos de idade. É uma grande diferença.
Alaor Neves - Existe alguma coisa especial que você poderia dizer sobre sua bateria neste novo disco do DP?
IAN - É uma cena musical diferente do que 30 anos atrás. De alguma forma é um pouco menos livre mas no fim da linha discos de sucesso são aqueles que têm boas musicas e é mais importante do que uma performance virtuosa. Você pode tocar bastantes partes interessantes de bateria em um disco até o ponto onde em que você não perde o sentido. O importante é você ter boas musica que toquem as pessoas e às vezes pra fazer a musica ficar bom o baterista tem que apenas conduzir e deixar o groove rolar.
Alguma me musica toquei de maneira simples e precisa para alcançarmos o efeito desejado. Teve uma musica que eu fiz algo interessante que vai enlouquecer alguns bateristas principiantes. Mas eu só fiz isso uma vez. Não ha necessidade de fazer com muita freqüência. E só pra provar que eu ainda consigo fazer. (risos!) Para este disco foi mais controlado.
Quando você grava a musica realmente ainda não esta pronta, as musicas são muito novas e verdes. Só depois que você toca ela no palco depois de 5 ou 6 meses e que você acha liberdade para fazer coisas diferentes, coisas interessantes para encaixar na musica, e ai onde ela realmente fica pronta. O período mais interessante são os primeiros 5 ou 6 meses depois de gravado o disco quando você passa a tocá-los no palco.
Alaor Neves - Como é que é a historia de tocar as mesmas musicas durante tanto tempo?
IAN - É interessante porque ao passar dos anos e que você acha o melhor jeito de tocar determinada musica você sabe as mudanças, os detalhes, saídas, versos... É mais fácil achar uma formula melhor para aquela musica, e às vezes leva 15 anos para ficar bom. Mas se você não tentar se surpreender a cada noite a coisa tende a ficar monótono. Tocando o mesmo show toda noite no fim eles acabam sendo diferentes. E Rock n Roll não um programa de TV ou uma peca de teatro com roteiro, tem que ter suas surpresas.
Alaor Neves - Como é que vocês escolhem o SET LIST par uma determinada noite tendo um vasto repertório?
IAN - Quando você não esta em turnê de um disco não e tão difícil. Nós temos tantos clássicos que as pessoas querem ouvir. Você tenta misturar. Quando você esta lançando um disco, como nos que estamos lançando agora e um pouco mais difícil por que você tem que inserir músicas novas, mas não temos muito tempo, pois é muito cansativo tocar 3 horas numa noite tanto para o publico quanto para os músicos. A atenção do publico não dura tanto. Para mim um show de rock deve ter no Maximo 1 hora e 45 minutos pois e melhor o publico sair querendo ouvir mais do que sair aliviado por ter acabado o show.
Se você coloca 3 ou 4 musicas novas no show você pode pegar uma musica que tem 10 minutos e tocá-la em 6 minutos assim você do espaço para outras musicas. Também colocamos as musicas novas entre os clássicos pois o publico tende a aceita-las melhor. Se tocarmos as musica novas sem tocar as antigas o publico não vai gostar. O publico vai ao show para ouvir os clássicos, apesar de estar interessados no material novo. Muitos artistas tentam lançar algo novo e não tocam as coisas antigas depois de 2 ou 3 dias eles voltam a tocar as musicas antigas de novo. Então nos misturamos os clássicos com as novas.
Alaor Neves – Sobre o seu SET UP...
IAN - Nos anos 80 varias bandas de arena (tocam em grandes estádios) começaram montar grandes sets de palco e os kits de bateria começaram a ficar cada vez maiores. Alex Van Halen tem 3 ou 4 bumbos, mas ele não tocava 3 ou 4 bumbos! (risos) Os kits tiveram um apelo visual maior e eventualmente nos fomos pegos por isso. Pra mim foi somar alguns tons, mas como eu disse no workshop, se eu ficar com um ou dois tons eu ainda consigo tocar basicamente a mesma coisa. Ficaria limitado a dois timbres de tons diferentes mais ainda assim, seria como antigamente...!!!.E uma questão de saber onde encaixar a melhor opção. Normalmente meu kit é caixa, ton de 13 e o primeiro surdo, os demais tornan-se apenas outras opções. O kit básico de bateria e o mesmo de 40 ou 50 anos atrás. Apenas ficou um pouco maior para impressionar.
Alaor Neves - Você trabalha junto com o produtor o som da sua bateria, ou você apenas toca?
IAN - Se o meu kit no estúdio esta regulado e afinado do jeito que eu quero, é o trabalho do produtor captar o meu som. Se tiver algum detalhe ali, outro aqui, a gente pode mexer um pouco. Se a bateria esta mal regulada ela vai soar ruim e vai ser gravada ruim!! É como se gravar uma guitarra desafinada, você não consegue melhorar o som dela depois de gravada.
Alaor Neves - Como vocês compõem no Deep Purple ?
IAN - Nós fazemos de duas ou três formas. Muitas músicas são criadas durante o processo de improvisação. Algumas vezes o Steve e eu chegamos mais cedo no estúdio e trocamos idéias e sempre encontramos algumas interessantes. Sempre com o gravador ligado, registramos tudo. Depois de uma hora tocando conseguimos dois ou três minutos de material que pode se tornar alguma coisa. Rogerr é quem escolhe o material que será discutido posteriormente.
Outra forma é quando um de nós aparece com uma idéia inicial, pode ser apenas um verso, um refrão, ou às vezes quase a musica inteira, cada um da uma idéia. Raramente alguém vem com uma musica toda pronta.
Alaor Neves - Como um baterista pode se tornar um bom músico?
IAN - É importante que o baterista entenda que para fazer bem o seu trabalho ele tem que ser um bom músico e não é só sentar lá e ser o baterista. Você tem que ouvir o que os outros músicos estão fazendo e aonde eles querem chegar. É uma questão de perceber o que a musica necessita, e essa a função do musico.
Alaor Neves - Como Ringo?
IAN - Absolutamente.
Isso e uma coisa que não se ensina. Às vezes não tocar nada e o mais certo a se fazer. Não tem nada a ver com técnica, ou você entende a musica ou não. Essa e a grande diferença entre grandes bateristas e grandes músicos.
Alaor Neves - Na década de 70” você usava alguns fills, fazia algumas introduções usando técnicas realmente novas de uma maneira muito particular, o que de certa forma enlouquecia muitos bateristas. De onde saíram essas idéias?
IAN - As pessoas sempre me perguntam o que eu fiz em determinada musica, em determinado disco. Algumas coisas que eu toquei naquela época, eu não consigo fazer de novo. Às vezes toco um pouco diferente. Não existe uma formula, eu não penso dessa maneira, e por isso que eu não tento ensinar ninguém, por que eu não sei exatamente como eu faço. Às vezes posso mostrar o que eu fiz, e alguém me diz, não é assim, e então eu digo, me mostra pois eu não consigo fazer. Às vezes eu não sei o que eu fiz, mesmo ouvindo o disco não sei as notações, mas realmente para mim não e importante. Isso são coisas de momento, e se aquele momento foi captado no disco, então esse momento fica para sempre.
Alaor Neves - Às vezes você precisa aprender aquela parte que você mesmo fez?
IAN - Às vezes fica ate impossível aprender por causa do feeling do momento. E seu estado emocional naquela hora.
Alaor Neves - O que você sentiu quando percebeu o quão importante vocês são, e que vocês haviam se tornado lendas do Rock and Roll?
IAN - Eu ainda tenho problema com a palavra lenda.
Apenas recentemente eu percebi que algumas coisas que eu fiz, realmente fizeram com que algumas pessoas decidissem tocar bateria. Somente nos últimos cinco ou seis anos que eu percebi isso. Nunca pensei nisso, não sou um fanático, eu apenas gosto de tocar ao vivo. Para mim é como para uma criança, é ainda uma grande diversão.
Alaor Neves

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