Na história da humanidade, pessoas de diferentes regiões do planeta têm imigrado levando sua cultura e, conseqüentemente, sua música. Essas músicas "regionais", carregadas com os elementos culturais de cada sociedade se misturam umas às outras, criando assim novas formas musicais. Nos EUA, América do Sul e Caribe, a influência dos ritmos africanos é particularmente forte. Nos Estados Unidos o Rock, R&B e o Jazz; no Brasil a Bossa Nova, o Samba; em Cuba e Porto Rico a Salsa, na Jamaica o Regae e em Trinidad o Calypso Todos têm origem em ritmos africanos. Para entendermos melhor devemos saber a história comum das regiões onde estas formas começaram a se desenvolver. As ilhas das índias ocidentais estão entre as primeiras áreas do mundo novo colonizadas pelo poder espanhol, português, inglês e francês Originalmente habitadas por várias tribos indianas, hoje podemos entender que a população dessas ilhas foi eliminada ou escravizada pela ganância dos povos europeus. Para transformar uma terra sem desenvolvimento num lugar de grandes lucros, os europeus precisavam de mão-de-obra barata.
Nessa época, essa necessidade era suprida pela mão-de-obra escrava vinda da África. A escravidão trouxe centenas de milhares de africanos para as ilhas caribenhas, América do Sul e Estados Unidos. A maioria veio do Oeste da África,
mas muitos também vieram da África Central, da região agora conhecida como Zaire. Portugal trouxe de navio escravos das suas colônias Moçambique e Angola
na África do Sul para a sua nova colônia, o Brasil.
Do século XVII ao século XX nas regiões colonizadas, europeus, africanos e o que
sobrou da população indígena dos locais se juntaram numa imensa mistura de raças, línguas, costumes, religião e é claro, músicas. O batuque já fazia parte
da vida diária dos africanos e esse costume foi trazido para o Brasil e para as ilhas
caribenhas. Música e dança são fundamentais nessas sociedades, como ritos sociais e religiosos como também para comunicação e entretenimento. Acredita-se que o batuque tem poder espiritual, poder de cura, de “fala”, de mudar as forças naturais e também podem alterar energias e emoções humanas .
Todos os estilos mencionados usam ritmos africanos, mesclados com
melodias européias e instrumentos das duas culturas.
Em Cuba, Porto Rico e na República Dominicana a mistura de ritmos africanos e música espanhola levou a música para novas formas recentemente batizadas de música Afro-caribenha.
A maioria dos ritmos que vamos observar nos exemplos a seguir são originários de Cuba, portanto chamaremos todos de ritmos afro-cubanos.
O nome Cuba vem da palavra índia cubanacan, que significa “lugar central”.
É a maior ilha do Caribe. Os primeiros habitantes eram índios de duas tribos, os Tainos e os Caribs. Ambas foram aniquiladas pelos espanhóis, mas traços da cultura Taino permaneceram.
Sob o domínio espanhol, Cuba se tornou a região produtora de açúcar mais lucrativa do mundo. O açúcar era extremamente valioso nos séculos XVII e XVIII quando fortunas individuais e economias nacionais se fundamentaram no comércio de açúcar. Milhares de escravos africanos foram trazidos para trabalhar nas plantações de cana de açúcar. Esses escravos eram controlados de várias maneiras pelos espanhóis. Entre outras coisas, eram forçados a falar espanhol e a se converter ao cristianismo. Em desafio e com o intuito de preservar suas culturas, os escravos deram aos Deuses africanos os mesmos nomes dos santos cristãos, e assim sendo, continuaram adorando seus santos sem que seus senhores os importunassem. Esta forma de adoração é conhecida como “Santeria”, preservando muitas religiões, rituais e tradições musicais africanas e ainda hoje é praticada.
A soma das influências africana e espanhola resultou em várias formas de música, sendo que a mais importante é a Son, que é a raiz da maioria dos estilos afro-cubanos de música. Acredita-se que a origem do Son, foi em “Oriente”, que é uma província no leste de Cuba, no fim do século XIX e é uma mistura da música dos camponeses e dos escravos africanos. Era tocada por pequenas bandas, usando guitarra ou três (um tipo de guitarra c/ três sets de cordas) de tradição espanhola, com maracas, guiro, claves e bongôs para os ritmos e para os baixos, a marimbula (uma versão grande da kalimba).
No final do século XIX, o Son começou a ser tocado em Havana, capital de Cuba, ficando mais urbana e cada vez mais popular, se tornando um estílo nacional, na década de 20.
Podemos dizer que vários estilos, como o Mambo, o tumbau, rumba, entre outros, tiveram sua origem no Son.
Na Republica Dominicana temos o merengue, que é a música regional mais conhecida. É uma música dançante em 2/4, criada no começo do século XIX.
Como resultado de uma influência francesa (Haitiana), a fórmula 2/4 é muito usada na música folk (caipira). Os primeiros grupos de merengue usavam acordiom, tambora (tambor com peles dos dois lados tocado com baqueta e abafado com a outra mão) e a guira, um guiro de metal peculiar da música Dominicana. As bandas modernas de merengue aderiram ao uso de seções de metais e incrementaram o uso de tempos mais sofisticados em seus arranjos, mas basicamente, seus elementos permanecem os mesmos.
Angels Vitoria's, era o nome da banda que popularizou o merengue na cidade de New York, na década de 50. O cantor Dioris Valladares juntamente com o tocador de tambora, Luis Quintero, ajudaram a popularizar o estilo merengue nos EUA.
Nas décadas de 70 e 80 agregou-se ao merengue o uso de instrumentos modernos e nova coreografia, tornando o estilo musical em questão ainda mais conhecido, devido ao grande número de imigrantes dominicanos que viviam em New York..
Nos anos 20 os porto riquenhos começaram a imigrar para os EUA, em grande número, levando estilos cubanos e suas músicas regionais na bagagem.
A maioria se instalou num bairro do Harlem oriental, conhecido como “El Barrio”. Este bairro teve um papel vital no desenvolvimento da música afro-cubana, servindo tanto como local para as formas mais tradicionais, como terreno fértil para todo e qualquer novo estilo.
A banda "The César Concepcion" foi uma das latinas tops nos anos quarenta e cinqüenta, fundindo a música latina tradicional com as, muito em voga, big bands, criando um forte apelo popular nas audiências americanas.
Duke Ellington compôs várias músicas fazendo uso da fusão dos dois estilos. Também o brilhante arranjador cubano, Mario Bauza, trabalhou com Chick Webb e Cab Calloway, neste mesmo período. As idéias de Bauza são de extrema importância no surgimento do que se conhece como a nova música de jazz/afro -cubano, em especial nos arranjos de metais.
O evento afro-cubano mais importante da década de 40, foi o surgimento de Machito e seus Afro-Cubanos. Seu grupo era composto por uma poderosa sessão rítmica, que incluía, piano, baixo, bongô e timbales, além das tradicionais côngas (tumbadoras), que se completavam com trumpetes e saxofones, tocando harmonias de jazz. Machito (Frank Grillo), junto com sua sua irmã, a cantora Graciela e os Afro- Cubanos, com a primorosa direção musical de Mario Bauza, revolucionaram a música latina com a combinação dessas formas. Eles, com suas inspirações, foram a maior inovação que se tem registro na música latina dos anos 40: - o mambo e o Latin/jazz.
O mambo (ou montuno) ,conduziu a música afro cubana em sua fixação definitiva na cultura norte americana. O grupo de Jose Curbelo talvez tenha sido o mais expressivo nos anos 50 e tinha em sua formação o cantor Tito Rodrigues e o timbalero Tito Puente, que levaram a banda a ser considerada uma das mais importantes da década.
O Latin/jazz, também chamado de "Cubop", foi o resultado da mistura do be-bop jazz com instrumentos afro cubanos e seus ritmos. Um concerto de Dizzy Gillespie no Carnegie Hall, em 1947 e a gravação de "The Peanut Vendor", no mesmo ano, foi o sinal da chegada da nova forma. No mesmo show de Gillespie no Carnegie Hall, foi introduzido o grande conguero Chano Pozo, um dos primeiros músicos fortemente alicerçado na autêntica raiz da música afro-cubana e suas tradições, aumentando o público a cada apresentação.
Stan Kenton continuou seus experimentos com as músicas afro cubana e a brasileira com sua big band. Machito trabalhou com grandes solistas de jazz. O Latin/jazz continuou por toda a década de 50, com o notável trabalho de Cal Tjader, cuja banda incluía os percussionistas, Willie Bobo, Armando Peraza, e Mongo Santa Maria, importante líder afro-cubano na década de 60, até os dias de hoje.
Os mais importantes avanços da música afro cubana, continuaram na década de 80 em Cuba, com bandas como Los Van Van, que continuvam inovando. Outro ritmo que começou a se desenvolver nos EUA naquela época foi o Songo. Criado em Cuba na década de 60 pelo percussionista do Los Van Van, Changuito, para ser tocado em congas e na bateria, influenciou particularmente os bateristas de Latin-jazz da década de 80.
A música latina influenciou os músicos, de uma forma geral, por toda a década de 90.
Uma particularidade dos ritmos Afro-Cubanos é que, em sua maioria, eles foram adaptados para serem tocados em uma bateria convencional passando a compreensão desses ritmo ser objeto de atenção de muitos bateristas. Tentar entender como eles se processam, será nosso próximo passo.
Para tocarmos os ritmos cubanos, é essencial que entendamos a CLAVE. Ela é o "esqueleto" rítmico no qual a bateria e os outros instrumentos de percussão se apóiam.
A clave é tocada em um instrumento chamado CLAVES, que nada mais é do que duas peças sólidas cilíndricas feitas de madeira, que são executadas batendo-se uma na outra. A figura rítmica da clave pode também ser tocada com as palmas das mãos, com a baqueta tocando no aro da caixa, ou na lateral do surdo.
A clave é usada no folclore afro-cubano e na dança, na fórmula de 6/8, mas não é usual tocá-la em 6/8, pois os ritmos são em 4/4. Vamos tocá-la em 6/8 só para entendermos o patern do cowbell, no ritmo chamado BEMBE, que será o nosso primeiro objeto de pesquisa.
PARTITURA 1 , CLAVE de Bembe em 6/8.
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